O cheiro de café em suas mãos inebriava os pensamentos, invadia docemente as narinas e aflorava até os anseios mais adormecidos. Seu gosto era peculiar! Parecia que sempre precisaria de mais uma colherada de açúcar pra está no ponto. Seu toque era quente! Daquele que arrepia e gela antes de queimar. Sua fala era suave! Parecia que pra ele era mais importante ser sentido do que ouvido. Porém eu, caro leitor, sempre fui morna. E, surpreendentemente, este turbilhão de sensações deixava-me febril, em êxtase, e a beira de um abismo com os nervos fervilhando e uma vontade dos diabos de pular, mas, como disse antes, sempre fui morna e todos que possuem essa característica recuam! O medo me fez perceber a verdadeira dimensão da queda e que esta seria dolorosa pra quem não tivesse asas.  Então, fui convencida que recuar era o certo a ser feito. E logo, o cheiro do café foi desaparecendo, o gosto ficando amargo, o toque esfriando e a fala apenas sendo ouvida pela obrigação de ser. Naquele instante, a certeza que saltar era só um delírio foi tão absoluta que até o abismo sumiu! 

Por: Rose Bonifácio 

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O telefone tocou. Alguém chorava do outro lado. Não fazia ideia de quem. Há meses falava apenas o costumeiro “Bom dia!” com quem me aparecesse no elevador, e até essa expressão de educação forçada queria liquidar.  A pessoa perguntou por um nome desconhecido, tentei dizer que era engano, mas não me foi dado tempo. Nomes, locais e acontecimentos eram-me cuspidos através do aparelho, sem direito a resposta. Não dei atenção às palavras, ansiava apenas por um pequeno espaço, queria dizer “É engano” e pôr fim àquele monólogo, mas não me foi permitido.

Não conseguia desligar e, sem querer, comecei a escutar. Não eram grandes problemas, não precisavam de soluções mirabolantes… Foi bom não ter dito isso. O choro cessou, suas palavras tornaram-se mais claras, mas ainda não havia trégua. Em meio a isso, meus pensamentos vagavam outra vez, e volta e meia retornavam ao estranho caso.

E antes que pudesse fazer qualquer grande reflexão a respeito da vida e suas complicações, o telefone ficou mudo. 

Lais Lane. 

É só o fim!

Que anseio é este de chegar ao fim? Que alvoroço! Que mania de tropeçar nos próprios pés correndo antes mesmo de andar! Calma, caro leitor! Nem tudo é pra já, ponha algumas vírgulas nessa leitura que nas horas vagas chamas de vida, aprecie o caminho, a paisagem, a subida, a sensação de que só resta mais um passo… Por Deus, aonde pensas que vai tão depressa? Respire! Pare de atirar no escuro e pular de qualquer abismo. Quanto desejo! Quanta intensidade tola! Quanta pressa! Quanta decepção…  Não sabes que passarás a maior parte do tempo ansiando, almejando e esperando encontrar um mundo terrivelmente feliz que não existe? Aproveite!

Não espere tanto do fim! Este não passa de um lugarejo monótono localizado entre o que deveria ser vivenciado e o nada.

Por: Rose Bonifácio

Ah, o amor…

Ah, o amor e suas manias! Esse menino mimado, se bem soubesse o tamanho da bagunça que faz deixaria de ser impertinente. Deixaria nossos pés fincados no chão, saberia que não fomos feitos pra voar tão alto e que a queda é eminente e dolorosa. Mas, o amor não obedece, e reage ao fracasso de uma maneira estranha. Ele coloca um Band-Aid sobre a ferida, torce pra que cure com o tempo e te atira novamente do penhasco sem ao menos checar o paraquedas.

Impulsivo! Não liga pra dor estonteante que temos após darmos de cara no chão, pra ele o que realmente importa são os segundos que antecedem a dor, aqueles segundos que nos causa a ilusão de que nascemos pra voar, que nos fazem achar abrigo no céu e amaldiçoar a natureza por não ter nos dado asas.

Ah, o amor! Um coitado injustiçado! Isso é o que ganha como resultado desta irônica mania de passar a vida cortando um dobrado com esses ingratos que preferem o medo de cair ao risco de voar, perdão, amar!

Por: Rose Bonifácio

Não há mais brilho

tumblr_ljedj01cnZ1qhiioao1_500Gostava de olhar o céu à noite. Na verdade, gostava daqueles pontinhos brilhantes e solitários que mais tarde ensinaram-me a chamar de estrelas. Quando criança deitava-me na calçada e as observava por horas com a típica admiração infantil. Não existia nada mais divertido e/ou interessante. Havia algo nelas que prendia a minha atenção de tal forma que esquecia-me de o quão distante estávamos, e então, como de um súbito rompiam a linha tênue que separava o que era real do que era fruto da minha imaginação, e podia tocá-las e senti-las queimando minhas retinas com aquele brilho arrebatador e impiedoso. Era transcendental!
Contudo, o tempo passou, e eu cresci! Hoje, não consigo vê-las. O brilho das luzes aqui embaixo tornou-se a cada dia mais intenso, e no fim, fizeram-me o que jamais nenhuma estrela foi capaz de fazer, cegou-me!

Por: Rose Bonifácio.

Já paraste pra olhar o céu? O jeito que as nuvens se fundem e desfazem-se em total sintonia? É lindo! Eu costumava querer ser nuvem e desfazer-me em pássaros e fundir-me ao vento. Porém, descobrir o mar. Já reparaste no jeito em que as ondas quebram na praia e depois voltam ao fundo do mar e tranquilas refazem-se? É inspirador! Então, passei a querer ser mar, na verdade, ser onda. Quebrei-me e refiz-me diversas vezes até perceber que nem todos nasceram fortes o suficiente. Por fim, quis ser águia! Já percebeste o quanto são perfeitas? Voar é libertador! Sobrevoei as nuvens, cortei o vento e molhei minhas asas nas ondas. E nunca, durante todo meu ser ave desejei ser outro ser. Nunca mais mar, nunca mais céu, conseguir voar! Já reparaste o quanto é incrível? Quando conseguir ver, não desejará ser mais nada. E então, o vento estará soprando em seu rosto e lhe sussurrando que já achaste o que passaste a vida a procurar.

Por: Rose Bonifácio.

Sob pressão

O moço ali do lado queria que eu falasse da sua infância, época de meninice, como ele mesmo já disse tantas vezes. A garota que está sentada à minha frente quer que eu fale de amor, que busque razões para o que ela sente, que fale do que ela ainda não admitiu em voz alta, que crie uma declaração para o cara sentado ao lado dela. O garçom sorri com jeito de escárnio, e aposto que ele gostaria que eu criticasse algum comportamento. A criança, sentada à mesa com os pais, entendia-se com a conversa, e, agora mesmo, deve estar imaginando dragões e cavaleiros, espadas e os seus heróis, e, naturalmente, ela se sentiria feliz se eu estivesse escrevendo sobre isso. Já o tiozinho do pastel, do outro lado da rua, me olha como se eu guardasse a chave de algum mundo. E, para todos eles, essas palavras podem ser qualquer coisa.

Por: Lais Lane.

Coitada, tão injustiçada…

Pobre menina que vive a pensar que as pessoas giram ao seu redor. Pobre menina que diz não ter amigos e amores e por isso enriquece-me de pena, e sim, ela prefere a pena a ter que supor que as pessoas são indiferentes aos seus sentimentos. Pobre menina que optou por trancar-se em seu mundo, porém, este era tão pequeno que acabou por sufocá-la. Pobre menina que enfrentou pela primeira vez a vida de frente, e logo depois desistiu dela, mal sabe que desta forma perde a melhor parte do espetáculo. Pobre menina esquecida pelo mundo, a cada segundo ela perde moral! Pobre menina que a todo instante diz ser pobre, e em nenhum momento desconfia que ninguém a escuta.

Por: Rose Bonifácio.

Tempo, tempo, tempo.

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Não é fácil escrever sobre algo que está tão presente e que é tão ansiado e superestimado pela maioria, porém, acho que agora é à hora de arriscar, ou melhor, acho que é o tempo certo. Segundo o dicionário da língua portuguesa o tempo é a sucessão de momentos em que se desenrolam os acontecimentos, levando isso em conta, espero que no desenrolar desse texto não abuse ou desperdice o seu tempo, caro leitor.

As pessoas costumam fazer muitas afirmações sobre esse fenômeno, elas acreditam que há tempo pra tudo, desse modo, creio eu que ele seja um cara sempre bem disposto. Falam também que não devemos perdê-lo, pois ele é bastante precioso, dizem e repetem que não devemos desperdiçá-lo, pois não há muito dele pra isso, não é? Ele é curto e urge! Também é dito que temos que aproveitá-lo da melhor forma possível, acredito que do contrário nos tornaremos seres cheios de remorsos, por fim, porém não menos importante, dizem que o tempo passa e que inevitavelmente isso acontecerá a todos.

Em meio a tantas colocações, prefiro, e até gosto de pensar no tempo não como um curandeiro maluco que soluciona todo e qualquer problema, ou como um deus perfeito e glorioso, penso nele como algo mágico, na realidade o vejo como um garimpeiro de atitudes que está sujeito a erros e a relatividade. No entanto, estou ciente de que desse garimpo não só sairá pedras preciosas, serão encontradas também algumas/muitas pedras comuns, e isso de uma forma ou de outra acontecerá, afinal o tempo, o nosso garimpeiro experiente, não é perfeito e não nos transformará em algo que não podemos ou queremos ser, o que vai determinar se seremos diamantes ou simples britas será a nossa verdadeira intenção e vontade de sermos lapidados para o melhor.

Por: Rose Bonifácio.